Onde a fronteira atravessa casas: de Baarle a Derby Line

Casas na fronteira: Baarle e outras vidas em dois países
By Spotter2 - Own work, CC BY-SA 4.0, Link

Descubra cidades onde a fronteira corta casas e cafés: Baarle (Bélgica/Países Baixos), Sebatik e Derby Line. Curiosidades, vida diária e dicas para visitar. Seguras

Imagine cozinhar o café da manhã em um país e sentar para comê-lo em outro. Basta um passo a partir da porta do quarto para continuar em casa e, ao mesmo tempo, já estar no exterior. Em algumas cidades, isso não é fantasia, é rotina: a fronteira nacional atravessa as casas das pessoas.

Onde a fronteira passa — pelo chão ou sobre o tapete?

A maioria das fronteiras internacionais se apresenta como linhas claras e formais: barreiras, bandeiras, agentes. Mesmo assim, há lugares onde essa ideia certinha se desfaz. Em alguns poucos povoados, a linha divisória corta prédios ao meio — casas, lojas, até bibliotecas.

O exemplo mais conhecido é a cidade de Barle, dividida entre os Países Baixos e a Bélgica. Ali, a fronteira se comporta menos como uma linha e mais como uma teia, contornando ruas, cruzando pátios e cercas e, por vezes, atravessando o coração de um lar.

Uma casa meio belga, meio neerlandesa

Em Barle, a sala pode ficar em um país enquanto o quarto pertence ao outro. O que vale, porém, é a posição da porta de entrada. As regras locais determinam que, se a porta se abre para o lado belga, a casa é considerada belga — mesmo que metade da estrutura esteja nos Países Baixos.

Para ninguém se perder, marcas especiais foram pintadas nas ruas e até dentro dos prédios: cruzes brancas e as letras "NL" (Países Baixos) e "B" (Bélgica). Às vezes, as marcações atravessam o piso de um café ou cortam o meio do quarto de alguém.

Onde mais isso acontece

Barle não é o único ponto do mapa onde as casas se sentam a cavalo na fronteira. Na Ilha Sebatik, entre a Malásia e a Indonésia, existe uma casa em que a cozinha fica em um país e a sala no outro.

E, na cidade norte-americana de Derby Line, na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, uma biblioteca e um teatro também são bipartidos pela linha divisória, e visitantes passam de um país a outro simplesmente ao cruzar o saguão.

Como se vive em casas assim

Viver sobre a linha exige atenção aos detalhes. Em Barle, funcionam dois correios, e algumas casas têm dois endereços e duas caixas de correspondência. Moradores pagam serviços e impostos conforme o país ao qual a casa pertence.

Felizmente, na Europa, essas fronteiras causam poucos transtornos: Países Baixos e Bélgica fazem parte da União Europeia e do Espaço Schengen, onde controles rígidos não se aplicam. A circulação é natural, sem medo de multa por um passo a mais — um lembrete de como a política pública pode deixar o cotidiano leve ou burocrático.

Em outros lugares, onde as relações entre vizinhos são mais delicadas, casas assim poderiam alimentar disputas. Ainda assim, em Sebatik, as pessoas encontram maneiras de viver lado a lado, mesmo com a fronteira cortando o meio do lar.

Turismo e curiosidade do mundo todo

Essas cidades costumam virar atrações pitorescas. Em Barle, dá para ver a linha de fronteira atravessar um restaurante ou a vitrine de uma loja. Visitantes posam com um pé nos Países Baixos e o outro na Bélgica.

Os moradores já se acostumaram aos olhares curiosos. Eles inclusive produzem lembranças que celebram esse modo de vida pouco comum.

O que isso diz sobre nós e o mundo

Quando a fronteira atravessa uma casa, ela deixa de ser apenas traço no mapa. Vira parte da rotina de alguém. Ali, ninguém divide a vida entre “lá” e “aqui”; apenas se vive — muitas vezes, em dois países ao mesmo tempo.

Lugares assim sugerem uma possibilidade: talvez, com o tempo, as fronteiras deixem de soar como barreiras e passem a funcionar como pontos de encontro. Onde antes havia muros, podem surgir pontes — mesmo que cruzem a cozinha.