Descubra bebidas da Índia: masala chai, café filtrado, lassi, chach, toddy, sharbat, água de coco, thandai, sol kadhi e kanji — história e sabores.
A Índia é um país de uma diversidade vertiginosa — de culturas, tradições e paladares. Em cada canto deste território imenso, a culinária ganha sotaques próprios, e as bebidas ocupam um lugar especial nessa herança. Do calor do Rajastão às colinas verdes de Kerala, das cidades elétricas às vilas silenciosas, os copos refletem o clima, o ritmo de vida e as preferências de quem os prepara.
Por aqui, beber não é só matar a sede. As bebidas atravessam rituais culturais e religiosos, sinalizam hospitalidade e, muitas vezes, fazem parte do cuidado cotidiano com o corpo. Chá e café, lassi e chach, thandai e sharbat — cada um traz história, sabor e modo de preparo próprios.
O que segue é um passeio por bebidas queridas que conquistam moradores e viajantes. Cada gole é um encontro com a cultura — marcante, com raízes profundas.

O chá ocupa um lugar à parte no dia a dia indiano. Está em toda parte — em casa, na rua, nos escritórios, nas estações — e funciona como um atalho caloroso para acolher e conversar.
O estilo mais famoso é o masala chai, fervido com especiarias como cardamomo, cravo, canela, gengibre e pimenta-do-reino. As especiarias vão ao fogo com água; depois entram as folhas de chá, o leite e o açúcar — nasce uma xícara perfumada, aquecedora, revigorante.
Entre os clássicos regionais está o chá de Darjeeling — leve, floral, cultivado nas montanhas de Darjeeling, muitas vezes comparado ao “champanhe dos chás”. O chá de Assam é encorpado e vigoroso, ideal para o masala chai. O chá de Nilgiri, do sul da Índia, é mais macio, com notas frutadas delicadas.
O chai costuma ser servido em pequenos copos de barro (kulhad) ou copos de vidro. Na rua, aparece nas bancas guiadas pelo chaiwallah — o vendedor de chá que transforma um serviço ligeiro numa pausa breve no corre-corre.
Para muita gente, a xícara da manhã vai além do hábito — é um ritual e uma desculpa pronta para conversar, entre amigos ou enquanto se resolve negócio.

A Índia é famosa pelo chá, mas o café também tem terreno firme — sobretudo no sul. O café indiano se destaca pela profundidade e pela maneira particular de preparar e servir.
O sul do país abriga plantações renomadas, especialmente em Chikmagalur, Coorg (Kodagu) e nas Nilgiris. Os grãos indianos são amplamente exportados e valorizados pelo sabor macio e pelo aroma.
O filter coffee do sul é onipresente em Tamil Nadu, Karnataka, Andhra Pradesh e Kerala. Moído na hora, arábica ou robusta é preparado num filtro metálico; a decocção forte se mistura com leite e açúcar e, depois, é vertida de uma vasilha a outra para criar uma espuma sedosa.
Tradicionalmente, ele é servido em copos e pires de metal chamados dabra. Esse movimento característico esfria o café e bate uma espuma leve — parte função, parte espetáculo.
Em Tamil Nadu, o café é kapi, nome que nasce da pronúncia sul-indiana de “coffee”. Em Karnataka e Kerala, tende a ser mais forte e menos doce. Em comparação ao chá, o café ganha mais entre os jovens nas cidades, onde a cultura de cafés segue crescendo.
Acima de tudo, o filter coffee do sul concentra a herança da região — aroma, calor e rotina em um só gole.

O lassi é um dos queridinhos da Índia — simples, refrescante e perfeito para o calor. Na essência, é iogurte batido com complementos que definem sua personalidade.
O lassi doce mistura iogurte com água ou leite e açúcar, às vezes perfumado com água de rosas ou cardamomo. Costuma chegar coroado por pistache, amêndoas e açafrão — especialmente popular no norte, em estados como Punjab e Rajastão.
O lassi salgado é a versão clássica e saborosa, com sal, pimenta-do-reino, cominho e, às vezes, ervas picadas como coentro ou hortelã. É refrescante e conhecido por acompanhar bem a digestão.
O mango lassi acrescenta polpa de manga ao preparo, ficando mais espesso, quase de sobremesa; às vezes leva um toque de mel.
O bhang lassi é a versão festiva, feita com uma pasta de folhas de cannabis, tradicional durante o Holi.
Muitas vezes, o lassi chega em grandes copos de barro que mantêm a bebida fria. Pétalas, nozes e especiarias aparecem no topo — um detalhe que reforça sua função de gesto hospitaleiro, sobretudo no Punjab e no Rajastão.

O leitelho — conhecido na Índia como chach — é leve, refrescante e parte rotina nas regiões quentes. Faz-se batendo iogurte com água, especiarias e ervas: um básico descomplicado que conquista pela sede que mata com facilidade.
O chach tradicional combina iogurte e água em proporções de 1:2 ou 1:3, com cominho, sal negro e coentro e, às vezes, hortelã. Um pouco de gengibre ralado ou pimenta verde pode dar um leve ardor.
Medjiguppu é uma variação do sul popular em Karnataka e Andhra Pradesh, que ganha brilho com folhas de curry, coentro fresco e um toque de assa-fétida.
O masala chach é mais robusto, com mistura de especiarias que pode incluir pimenta-do-reino, pó de manga seca (amchur), cominho e, às vezes, um pitada de açúcar.
Servido gelado, muitas vezes em copo de barro, o chach combina com o clima e com a mesa. É presença constante em vilarejos de Gujarat, Rajastão e do sul — puro ou acompanhando a refeição, lembrando que ingredientes simples e um final fresco podem bastar.

O toddy — muitas vezes chamado vinho de palma — é uma bebida fermentada extraída de palmeiras. É comum no sul e nas faixas costeiras, como Kerala, Tamil Nadu, Andhra Pradesh e Goa, tanto pelo sabor franco quanto pelo papel nos costumes locais.
É feito da seiva do coqueiro, da tamareira ou de palmeiras de toddy. Recolhida na hora, a seiva — neera — não tem álcool e é doce. Em poucas horas, ela fermenta naturalmente e vira uma bebida de baixo teor alcoólico, agridoce e ligeiramente ácida.
Toddy doce é essa seiva fresca, apreciada antes da fermentação — um gole da manhã valorizado pelos açúcares naturais, vitaminas e minerais.
O toddy fermentado tem baixo teor alcoólico (cerca de 4–6%) e costuma entrar nas escolhas relaxadas do fim do dia em vilas e ao longo da costa.
Kallapam é um termo do sul para o toddy, especialmente em Kerala e Tamil Nadu, e aparece com frequência ao lado de petiscos locais.
Colhedores habilidosos sobem às palmeiras, fazem o corte no pedúnculo da flor e coletam a seiva em vasos de barro ou metal. Dali, ela é bebida na hora como neera ou deixada fermentar para virar toddy. Em muitas vilas, pequenas tavernas servem em canecas de barro ou metal, muitas vezes acompanhando peixes picantes, curries ou carnes.

Sharbat é um refresco tradicional feito de frutas, flores, ervas e especiarias. Popular em todo o país por bons motivos: servido gelado, é essencial no verão.
No básico, o sharbat é um xarope concentrado diluído em água (com ou sem gás) ou leite. Vem de ingredientes naturais — frutas como manga e limão, flores como rosa ou hibisco, ervas como manjericão e hortelã, e especiarias como cardamomo e açafrão.
O sharbat de rosas é um dos mais queridos, feito com água de rosas, açúcar e ervas. Traz perfume doce e cor rosada, às vezes misturado ao leite ou usado em sobremesas.
O sharbat de limão combina suco, açúcar e água, às vezes com uma pitada de sal ou pimenta-do-reino para equilibrar — um jeito fácil de driblar o calor e repor eletrólitos.
O sharbat de manga usa polpa fresca, açúcar e água — espesso, satisfatório e sucesso entre todas as idades.
O sharbat de sândalo é preparado com essência de sândalo e açúcar e é popular no norte da Índia, especialmente em Uttar Pradesh.
O de hibisco parte de pétalas secas da flor, com perfil agridoce e vermelho intenso.
Servido com gelo em copos de vidro, o sharbat costuma vir com folhas de hortelã, rodelas de limão ou nozes como amêndoas e pistaches. Feito de ingredientes naturais e rico em vitaminas e antioxidantes, refresca e reanima — muito presente em encontros religiosos e festivos, inclusive no Ramadã.

A água de coco é o refresco natural da Índia: o líquido translúcido do coco verde jovem. É uma das bebidas mais populares do país, valorizada pelo sabor limpo, pela praticidade e pela ampla oferta nas regiões costeiras e tropicais.
Rica em eletrólitos como potássio, magnésio, sódio e cálcio, é recurso certo para recuperar o equilíbrio hídrico — especialmente no calor. Com poucas calorias e cerca de 95% de água, mata a sede com eficiência e ajuda a evitar a desidratação.
No país, bebe-se direto do coco fresco, com um orifício no topo e um canudo. A polpa macia, quase gelatinosa, do coco jovem costuma vir depois, de colher. Às vezes, um toque de limão ou uma pitada de sal ajusta o sabor.
É favorita de quem pratica exercícios ou trabalha ao ar livre, ajudando a repor rapidamente eletrólitos perdidos. Muitos também recorrem a ela para acalmar o estômago, aliviar a azia e sossegar incômodos digestivos. Com antioxidantes e vitaminas, contribui ainda para o sistema imunológico.
Simples e com pouco desperdício, a água de coco é vendida o ano todo, direto do coqueiro ou em barracas de rua.

O thandai é uma bebida láctea refrescante enriquecida com açúcar, nozes e especiarias aromáticas. O nome vem da palavra em hindi para “frio” — e faz jus à fama nos meses mais quentes. Está profundamente ligado ao festival de Holi.
Ele parte do leite e de um elenco generoso: nozes moídas em pasta para dar corpo, sementes como erva-doce e abóbora, especiarias como cardamomo, pimenta-do-reino e açafrão, água de rosas ou pétalas, açúcar e, durante o Holi, às vezes bhang, uma pasta de folhas de cannabis, para um tom mais festivo.
Servido gelado em copos altos e coberto com nozes picadas, açafrão ou pétalas de rosa, o thandai sinaliza alegria, frescor e a chegada da primavera. Pelo país, as receitas variam: em Rajastão, pode ser mais espesso, com mais nozes; em Uttar Pradesh, as especiarias ganham intensidade.

O solim, também conhecido como sol kadhi, vem de Maharashtra e Goa, sobretudo na costa de Konkan. Feito com leite de coco e a casca seca do kokum — fruto ácido —, tem tom rosado e um frescor direto ao ponto.
Os essenciais são o kokum, que garante acidez e cor; o leite de coco, que aporta cremosidade; especiarias como alho, pimenta verde, cominho e coentro, para levantar aromas; e sal. Servido gelado em copos ou tigelas pequenas, o solim pode acompanhar pratos — especialmente os mais picantes — ou ser bebido sozinho.
É um clássico da culinária de Konkan, frequentemente servido ao fim da refeição para acalmar o estômago depois de pratos carregados de pimenta. No calor, é escolha natural pelas qualidades refrescantes e tranquilas — e é inteiramente vegetal.
As variações podem incluir folhas de curry, assa-fétida ou coentro picado. Em Goa tende a ser um pouco mais doce; em Maharashtra costuma ser mais ácido e especiado.

O kanji é uma bebida fermentada tradicional, valorizada pelo caráter ácido, apimentado e refrescante. É especialmente popular no norte — Punjab, Uttar Pradesh e Rajastão — e costuma aparecer na virada do inverno para a primavera.
A base é simples: cenoura-preta, mostarda, água, sal e, às vezes, um toque de pimenta vermelha ou sementes de funcho para perfumar.
Gelado no copo, o kanji é tão vibrante quanto parece. Pedaços de vegetais fermentados podem permanecer dentro da bebida para intensificar o sabor e a textura. Costuma ser preparado no fim do inverno e servido em celebrações como o Holi, marcando a mudança de estação.
Em regiões diferentes, entram rabanete, beterraba ou até pequenos bolinhos fermentados de urad dal, chamados kanji vare. No Punjab, o kanji pode ser mais potente, com mais especiarias; em Uttar Pradesh, a beterraba aprofunda o vermelho; no Rajastão, grãos de cevada às vezes trazem textura.
Com acidez picante, cor saturada e mordida satisfatória, o kanji junta tradição, sabor e uma sensação de bem-estar.