Descubra como o Butão usa energia hidrelétrica excedente para minerar Bitcoin de forma limpa e gerar receita, lidando com a sazonalidade e atraindo capital.
O Butão é um pequeno reino do Himalaia espremido entre a Índia e a China. Por anos ficou fora do radar, mas recentemente surpreendeu: começou a minerar Bitcoin usando a força de seus rios. Onde muitos governos veem apenas um problema — a mineração costuma devorar eletricidade e poluir o ar — o país apresentou uma alternativa ao operar suas operações cripto com energia limpa de hidrelétricas.
O Butão é rico em rios caudalosos, e quase toda a sua eletricidade nasce de usinas hidrelétricas. A capacidade atual gira em torno de 3,5 gigawatts, mas a ambição é maior: elevar primeiro para 15 e depois para 33 gigawatts.
Há um porém: no verão, energia sobra; no inverno, falta. Para não desperdiçar quilowatts excedentes, as autoridades decidiram direcioná-los à mineração de Bitcoin.
Em 2019, o fundo estatal Druk Holding & Investments (DHI) passou a experimentar criptomoedas. Na época, o Bitcoin era negociado perto de cinco mil dólares. Nos anos seguintes, o país ergueu seis sites de mineração e prepara um sétimo.
Segundo reportagens, o Butão já extraiu mais de 13 mil bitcoins e entrou para o grupo dos maiores detentores estatais do ativo. Para o reino, a criptomoeda funciona como uma bateria digital: a energia excedente vira bitcoins que podem ser guardados e vendidos quando necessário. A lógica é simples — transformar eletricidade sobrando em um bem armazenável — e parece uma aposta pragmática para um país com forte sazonalidade energética.
As autoridades divulgam pouco, mas diferentes fontes dizem que a receita com mineração já cobriu salários de servidores públicos. De acordo com a Forbes, em 2024 as reservas cripto do país foram avaliadas em cerca de 750 milhões de dólares, e em 2025 alguns analistas falavam em 1,3 bilhão — quase 40% do produto interno bruto do Butão.
O trunfo butanês é o uso da força dos rios. Ao contrário de países onde se minera com carvão ou gás, o processo por lá não deixa uma pegada de carbono significativa. Isso torna os bitcoins do Butão atraentes para empresas que seguem padrões ambientais.
Ainda assim, ficam dúvidas. Como garantir que, no inverno, a eletricidade não seja tirada dos moradores? Quão transparentes são as receitas e despesas? Por ora, não há respostas claras — e o silêncio desperta escrutínio.
Além da mineração, o Butão planeja um distrito especial chamado Gelephu Mindfulness City. A proposta é combinar arquitetura sustentável, tecnologias digitais e novos instrumentos financeiros, incluindo criptomoedas.
O projeto é ousado, e os riscos são reais. O preço do Bitcoin oscila com força, o hardware envelhece rápido e a mudança climática pode afetar os rios. Por outro lado, este pequeno reino embarcou em um experimento que, até agora, ninguém tentou replicar — um risco calculado que pode redefinir o uso de energia limpa excedente.
O Butão mostrou que rios de montanha podem fornecer não apenas luz, mas também uma nova via de receita. Se a demanda por bitcoins mais limpos crescer, o país estará bem posicionado.
É a história de um Estado distante dos grandes centros econômicos encontrando seu próprio caminho para o futuro digital — assumindo riscos enquanto abre novas oportunidades.