13:34 21-11-2025

Por que alimentar corvos no Sri Lanka ainda importa

Descubra a tradição de alimentar corvos no Sri Lanka e na Índia: Kāka Bali, Pitru Paksha e o simbolismo de honrar antepassados. Cultura e respeito em ação.

© A. Krivonosov

Nas ruas do Sri Lanka, não é raro ver uma cena curiosa e ao mesmo tempo terna: alguém deixa um pouco de arroz ou uma pequena refeição no parapeito da janela, no chão ou junto a um templo. Minutos depois, os corvos — abundantes por ali — descem e não deixam um grão para trás. À primeira vista, parece apenas alimentar aves, mas há ali um cuidado silencioso que pesa mais do que parece.

Um corvo é mais do que um pássaro

No Sri Lanka, os corvos não são tratados como mera fauna urbana. Dar-lhes comida é considerado um gesto correto e gentil — capaz de expressar respeito pelos mortos ou até reverência aos deuses.

Há mais uma camada nisso. Crenças locais dizem que quem se porta mal, sobretudo quem desrespeita monges ou templos, pode renascer como corvo ou cão. Esses pássaros, assim, deixam de ser apenas vizinhos alados e passam a servir de lembrete do que é certo e errado.

Por que oferecer-lhes comida?

O costume não é exclusivo do Sri Lanka. Na Índia, durante um período especial chamado Pitru Paksha, as pessoas moldam bolas de arroz e as deixam para os corvos. As aves são vistas como mensageiras que levam essas oferendas às almas dos antepassados.

Essa prática é conhecida como Kāka Bali. Textos antigos descrevem inclusive divindades que ajudam a levar tais oferendas ao outro mundo. Para muitos, não se trata apenas de um ritual, mas de uma forma de manter um fio de ligação com quem já se foi.

Os corvos entendem?

Alguns estudos sugerem que os corvos são notavelmente inteligentes. Eles se lembram das pessoas, reconhecem rostos, levam desaforo a sério e até revidam. Por isso, quando alguém os alimenta com frequência, eles notam — e tendem a voltar.

Isso dá ao costume uma dimensão surpreendentemente pessoal: um gesto generoso é notado, guardado na memória e, de certo modo, retribuído. A troca soa espiritual e íntima, como se se formasse um pequeno pacto entre pessoa e ave.

Por que isso ainda importa

É fácil descartar tudo isso como uma crença antiga. Mas, num mundo em que nossos laços com a natureza e a tradição se afinam, práticas pequenas e constantes costumam ser as que discretamente nos mantêm unidos. Não é preciso erguer um santuário ou vasculhar textos antigos para honrar suas raízes. Às vezes, um punhado de arroz e um minuto de quietude bastam.

Enquanto os srilanquenses seguem partilhando comida com os corvos, preservam um elo invisível, porém vital, entre gerações. E talvez esses pássaros sejam mesmo um pouco especiais — não à toa tanta gente os vê como mensageiros entre mundos.