13:49 01-01-2026

Nag Panchami: por que a Índia venera as serpentes

Descubra o Nag Panchami, festival indiano que celebra serpentes sagradas. História, rituais, templos e sentido ambiental desta tradição viva em toda a Índia.

By Rajesh Dhungana - Own work, CC BY-SA 4.0, Link

Na Índia há um dia em que as serpentes ficam no centro das atenções. As pessoas entoam mantras, oferecem leite e pedem proteção. Pode soar incomum, sobretudo para quem teme esses animais por instinto. Ainda assim, Nag Panchami é um festival antigo com um propósito mais profundo: mostra como fé, natureza e costume podem se entrelaçar dentro de uma mesma cultura. De perto, parece menos um espetáculo e mais um pacto silencioso com o mundo vivo.

O que é o festival

Nag Panchami é celebrado por toda a Índia no verão, geralmente em julho ou agosto. O nome remete ao quinto dia dedicado às serpentes: nag significa serpente, e panchami indica o quinto dia do calendário lunar.

Nesse dia, as pessoas realizam ritos específicos. Alguns rezam nos templos; outros despejam leite em cupinzeiros ou enfeitam as casas com imagens de cobras. Nada disso é encenação. É uma forma de expressar reverência por animais considerados sagrados. O gesto é simples, mas diz muito sobre a relação com o entorno.

Serpentes no mito: guardiãs, não inimigas

Na tradição hindu, uma serpente é mais do que um animal perigoso. Nos relatos antigos, ela é poderosa e sábia, intimamente ligada aos deuses. Os mitos falam de serpentes que guardam tesouros, auxiliam divindades ou até as conduzem.

Shiva é frequentemente retratado com uma naja ao redor do pescoço, enquanto Vishnu repousa sobre a grande serpente Shesha. A antiga epopeia indiana Mahabharata relata que um sábio salvou as serpentes da aniquilação; desde então, Nag Panchami passou a ser observado como um dia de reconciliação.

Como se celebra o Nag Panchami

By Bijay Chaurasia — Own work, CC BY-SA 4.0

Os costumes variam de região para região, mas o essencial se repete. As pessoas:

Muitas mulheres rezam pela saúde dos irmãos, pois a serpente é vista não apenas como fonte de perigo, mas também como símbolo de proteção e prosperidade. Há ainda a regra de evitar cavar a terra nesse dia: pode haver serpentes sob a superfície e elas não devem ser perturbadas.

Em alguns lugares, os templos chegam a receber serpentes vivas, geralmente najas. Elas não são feridas; são cuidadas, alimentadas e depois devolvidas à natureza. Esses ritos ocorrem sob a supervisão de apanhadores de serpentes e sacerdotes.

Por que venerar as serpentes

Não se trata apenas de mito e crença. Durante a monção, as serpentes saem de suas tocas e podem surgir perto das casas, o que de fato é perigoso. A veneração torna-se uma forma de selar uma trégua com a natureza: as pessoas demonstram respeito na esperança de evitar danos.

Essa postura importa especialmente nas aldeias, onde a vida está mais próxima da terra e os encontros com a vida selvagem são mais comuns.

Olhar contemporâneo: um festival com sentido ambiental

Hoje, muitos cientistas e conservacionistas defendem que o Nag Panchami pode apoiar a proteção das serpentes e do ecossistema mais amplo. As serpentes desempenham um papel útil ao controlar roedores e outras pragas, ajudando a resguardar campos e colheitas. Tratá-las com respeito, e não com hostilidade, beneficia a natureza e também as pessoas. A lógica é simples e convincente.

Alguns ecologistas indianos descrevem o dia como um festival verde, porque ensina atenção aos animais, inclusive aos que nos causam medo.

Onde as serpentes são especialmente reverenciadas

By Lokesha Kunchadka — Own work, CC BY 4.0

A Índia tem muitos templos dedicados às serpentes. Um dos mais conhecidos é o Templo Nagvasuki, em Prayagraj, onde devotos veneram Vasuki, considerado o rei das serpentes. O santuário existe há séculos, e milhares de peregrinos o visitam durante o Nag Panchami.

Além disso, ritos vibrantes e cheios de significado acontecem por todo o país onde quer que a data seja observada.

O que o festival significa hoje

Num mundo em que a natureza está cada vez mais pressionada pela ação humana, festas como esta lembram algo essencial: os seres vivos não são inimigos, mas coabitantes do planeta. As serpentes não fogem à regra. Quando uma cultura abre espaço para o respeito a elas, preserva-se uma medida de equilíbrio entre as pessoas e o mundo selvagem.

Nag Panchami não é apenas uma celebração das serpentes. É uma lição de convivência com aquilo que nos inquieta e, ainda assim, merece respeito — uma ética discreta de coexistência que continua atual.