09:34 31-12-2025
Rituais de cura no Peru e na Bolívia: música, não ruído
Investigamos rituais de cura no Peru e na Bolívia: icaros, Kallawaya e San Pedro mostram que a música é harmonia e suporte — não cacofonia nem ruído.
Hoje, muita gente busca formas menos óbvias de cuidar de si — alguns tentam meditação, outros apostam na respiração guiada ou em rituais ancestrais. Peru e Bolívia há muito são associadas a xamãs e cerimônias com plantas. Mas haveria práticas que miram a cura pela cacofonia — ruído, som alto e caótico? Fomos atrás dessa resposta, e o quadro que se desenha é bastante claro.
A música faz parte dos rituais — e não soa como barulho
Na Bolívia, por exemplo, o povo Kallawaya preserva tradições de cura que recorrem a ervas, sopro, toque e música. A UNESCO reconhece essas práticas como patrimônio cultural. A música, aqui, tem papel evidente, mas não como ruído: surge em ritmo constante e apaziguador, pensado para relaxar e preparar quem participa.
Nas cerimônias de ayahuasca no Peru, os xamãs entoam canções específicas, os icaros. Essas melodias são consideradas sagradas e ajudam os participantes a se voltarem para dentro, a se sentirem amparados e a conduzirem a própria vivência. Em outras palavras, o som é belo, centrado — nada de cacofonia.
Há outros ritos, como os que envolvem o cacto San Pedro. Também acontecem com cantos e instrumentos — tambores, flautas — muitas vezes ao ar livre, com um objetivo nítido: restaurar o equilíbrio interno.
E a cacofonia?
É tentador imaginar que, em algum canto da serra, existam rituais baseados em barulho e caos sonoro. Em outros países, um tipo de “terapia do ruído” vem ganhando espaço — com gongos, vibrações e até texturas industriais em alto volume. Mas, no caso da Bolívia e do Peru, não aparece nada nessa linha.
Pesquisamos sites que oferecem participação em cerimônias, consultamos trabalhos acadêmicos e materiais culturais de ambos os países. Em nenhum deles surgem relatos de cura pela cacofonia. O padrão é consistente: a música nesses ritos deve acolher e sustentar, não assustar nem desestabilizar.
Há um estudo recente que menciona um grupo dedicado à prática musical e de movimento coletiva, descrita como um ajuste à vibração da Terra. Mesmo ali, a tônica é a harmonia, não a desordem sonora — o que reforça o que se observa no restante das práticas.
Por que isso importa
No Peru e na Bolívia, a música não é um adorno. Ela carrega sentido. A crença é de que o canto transmite energia, convoca os espíritos da natureza e acalma a alma. Qualquer coisa que rompa essa atmosfera — ruído abrupto ou cacofonia — simplesmente não se encaixa na ideia local de cura. Diante desse pano de fundo, faz todo sentido que os rituais priorizem cadência e cuidado no som.
Talvez o ruído como terapia se ajuste melhor a contextos urbanos ou a um certo imaginário do bem-estar ocidental. Nos Andes, a confiança ainda parece repousar no silêncio, nas paisagens e na voz humana sem adornos.
E se isso estiver mudando?
Não dá para descartar que rituais desse tipo apareçam no futuro. As pessoas viajam, trocam práticas, testam limites. É possível que alguém já esteja experimentando com ruído — pode ser que nada disso tenha sido publicado ainda. Por ora, porém, não há confirmação de ritos baseados em cacofonia no Peru ou na Bolívia.