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A fala assobiada: onde ela vive e por que importa

Descubra as línguas assobiadas: do Silbo Gomero em La Gomera à língua dos pássaros de Kuskoy, Antia e Aas. História, funcionamento e por que essa voz importa.

By David Stanley from Nanaimo, Canada - Local Residents, CC BY 2.0, Link

Imagine um assobio vindo de longe — límpido, sustentado, mudando de tom. Não é apenas um chamado. É fala. Em alguns cantos do mundo, ainda se mantêm conversas em assobios — frases inteiras que preservam o sentido.

Essa forma de comunicação surgiu há muito tempo em lugares onde gritar não adiantava e telefone não existia: montanhas, florestas, povoados espalhados. Um assobio percorre quilômetros e atravessa desfiladeiros ou mata densa com nitidez. É uma solução engenhosa para um problema imposto pela geografia.

Como funciona a fala assobiada

As línguas assobiadas não são idiomas à parte, como o espanhol ou o turco; são um modo especial de transpor a fala comum. Em vez de sinais soltos, assobiam-se frases inteiras. O assobio espelha a entoação e o ritmo do idioma, permitindo que o ouvinte capte o conteúdo.

Pode parecer improvável, mas funciona. As palavras viram melodia — timbre e altura substituem consoantes e vogais —, e quem cresce com o sistema entende com facilidade. Ouvido no contexto, o resultado soa surpreendentemente natural.

Onde o assobio ainda está vivo

O caso mais conhecido é La Gomera, uma das Ilhas Canárias, na Espanha. Ali, uma forma assobiada do espanhol, o Silbo Gomero, surgiu entre pastores que precisavam conversar a distância — por cima de vales e encostas.

Hoje, ele não só sobreviveu: é ensinado nas escolas e faz parte da identidade local. Na ilha, cerca de 22 mil pessoas ao menos entendem o Silbo Gomero, e uma parte delas também consegue usá-lo. Essa escolha ajudou a manter a tradição no dia a dia, não como peça de museu.

Na Turquia, a aldeia de Kuskoy — cujo nome significa Aldeia dos Pássaros — tem prática semelhante. Os moradores há muito recorrem ao assobio para se comunicar e a conhecem como a língua dos pássaros. Embora os mais jovens a usem menos, gerações mais velhas ainda lembram como conversar em assobios.

Na ilha grega de Euboea, na aldeia de Antia, também permanece um grupo de falantes. Pesquisadores da UCL começaram a estudar o sistema, gravando e analisando os sons para ajudar a preservar essa forma rara de comunicação.

Quando uma língua assobiada quase desapareceu

Às vezes, tradições assim se perdem. Em Aas, uma aldeia nos Pirenéus franceses, os moradores tinham sua própria fala assobiada usada por pastores. Após a morte da última mulher que a dominava — conhecida como Anna Paiyas —, a prática quase sumiu.

Ainda resta um fio de esperança. Em 2024, entusiastas publicaram a primeira gravação de áudio da língua em muitos anos. Esse arquivo ajuda a manter viva a memória e, com sorte, pode um dia sustentar uma retomada.

Por que isso importa

O assobio pode parecer uma curiosidade simpática, mas diz muito sobre como nos comunicamos. A fala assobiada mostra que o sentido pode ser carregado não só pelas palavras, mas pelo próprio som — um lembrete de que a linguagem vai muito além da página escrita. É difícil ouvir um diálogo assim e não repensar o que chamamos de voz.