09:51 30-12-2025
Kintsugi, mottainai e o mito de senju: por que reparar importa
Entenda o kintsugi: a arte japonesa de reparar cerâmicas com ouro, o conceito de mottainai e por que 'senju' não significa respeito ao antigo. No Japão.
Nos acostumamos a nos desfazer das coisas com facilidade. Quando algo quebra, tomamos isso como um sinal para trocar: celular novo, roupa nova, louça nova. No Japão, a perspectiva é outra. Se um objeto compartilhou um trecho da sua vida, entende-se que conquistou o direito de ficar, não de ir para o lixo.
Às vezes se ouve que os japoneses têm uma palavra especial — “senju” — que significaria a arte de respeitar objetos antigos. Não é bem assim. A palavra existe em japonês, mas quer dizer outra coisa — como “mil mãos” em imagens religiosas ou o nome de uma personagem de anime. Não há um sentido confirmado de “senju” como “respeito pelo que é antigo”.
Existe, porém, uma arte japonesa que expressa esse espírito com nitidez: o kintsugi.
O que é kintsugi?
Kintsugi é uma forma de reparar cerâmicas quebradas unindo os fragmentos com uma laca especial misturada a pó de ouro ou de prata. Em vez de esconder as rachaduras, ele as evidencia. O resultado vai além de uma xícara restaurada: parece um diário de uso — aqui escorregou, ali foi cuidado. Cada emenda conta por onde o objeto passou.
Mas kintsugi não é só sobre utensílios. É uma atitude em relação às coisas: quebrado não significa perdido. Paradoxalmente, o conserto pode tornar a peça mais valiosa. Ela se torna única porque carrega tempo e memória — e essa singularidade fala alto.
Por que isso importa
No Japão, busca-se não descartar o que ainda pode servir. Há o conceito de mottainai — a ideia de que o desperdício é motivo de pesar. Ele vale para tudo: comida, roupa, energia, até o tempo.
Essa mentalidade orienta para o cuidado — consigo, com o entorno e com os objetos ao alcance. A lógica é de uma praticidade desarmante e, em tempos de descarte fácil, soa especialmente sensata.
O mundo está descobrindo
Hoje, cada vez mais gente fora do Japão se interessa pelo kintsugi. O visual chama atenção, mas o apelo está no significado. Em um mundo onde trocar o velho pelo novo é quase automático, uma filosofia do reparo passa a ter peso.
Kintsugi sugere que todo objeto pode ter uma segunda vida — e talvez uma terceira. Há aí respeito, uma sabedoria silenciosa e, quem sabe, uma pista de como viver com mais simplicidade e honestidade: não jogar fora ao primeiro trincado.
E quanto a “senju”?
Embora a palavra “senju” soe bem, ela não quer dizer o que muitos imaginam. Ainda assim, o impulso de honrar o que foi bem usado está vivo na cultura japonesa. Ele aparece com outros nomes — e, mais do que em termos, em hábitos.
Consertar uma xícara com uma costura dourada. Dobrar com cuidado uma camisa velha. Não descartar — guardar. Não é só sobre objetos; é um modo de se relacionar com a vida.