05:47 13-12-2025

As bebidas nacionais que revelam a cultura de cada país

Explore bebidas nacionais do Japão à Argentina: saquê, tequila, cachaça, vinho, mate e chá de menta. Descubra origens, rituais e papel cultural no cotidiano.

© A. Krivonosov

As bebidas nacionais se entrelaçam com a cultura e as tradições de inúmeros países. Elas refletem história, clima e até traços de caráter coletivo. Cada nação valoriza seu gole emblemático, seja o café revigorante da Etiópia, o chá vivaz da China ou o vinho refrescante da França. Nesta reportagem, embarcamos numa volta ao mundo para ver quais bebidas viraram cartões de visita de diferentes países, como surgiram e que papel cumprem no dia a dia. No caminho, olhamos além dos rótulos mais famosos de álcool e refrigerantes para especialidades regionais que revelam o quanto nosso mundo é diverso.

Japão — saquê

O saquê, ou nihonshu, é a bebida alcoólica nacional do Japão, fermentada a partir de arroz, água, levedura e o mofo koji. O arroz é cuidadosamente polido para remover as camadas externas e preservar o núcleo de amido, etapa que define a qualidade. Na fermentação, o amido vira açúcar e depois álcool. Há estilos que vão do junmai (saquê puro de arroz) ao ginjo (macio e aromático). Pode ser doce ou seco e é servido morno ou gelado, conforme a estação e a preferência.

No Japão, o saquê circula tanto nas mesas do dia a dia quanto em rituais e celebrações, dos cerimoniais xintoístas aos casamentos, simbolizando purificação, harmonia e boa sorte. É difícil pensar nesses momentos sem imaginar uma garrafa por perto.

México — tequila, mezcal

A tequila, símbolo do México, nasce do agave-azul que cresce sobretudo em Jalisco. O coração da planta, a piña, é assado, moído e fermentado; o suco passa por dupla destilação para ganhar seu caráter inconfundível. As categorias incluem blanco (sem envelhecimento), reposado (até um ano em carvalho) e añejo (acima de um ano). Presença certa em festas como o Dia dos Mortos e motivo de orgulho nacional, costuma ser tomada com sal e lima ou em clássicos como a Margarita.

O mezcal é outro destilado tradicional, feito de diversas espécies de agave, não apenas do agave-azul. Suas raízes remontam ao período pré-colonial. As piñas são assadas em fornos de terra, o que confere a nota defumada antes da moagem, fermentação e destilação. Há estilos do joven (jovem, sem envelhecimento) ao añejo (envelhecido em barril). Muitas vezes confundido com a tequila, o mezcal oferece um espectro de sabores mais amplo e estratificado devido ao método de produção. Carrega peso cultural, ligado a tradições e rituais indígenas, e é apreciado puro ou em coquetéis por sua intensidade aromática e vigor. Não à toa, ganhou espaço nos bares do mundo.

Brasil — cachaça

A cachaça, muitas vezes chamada de rum brasileiro, é destilada do caldo fresco de cana fermentado. Sua história volta ao período colonial, quando a cana moldou a economia do país. Existem dois estilos principais: branca (ou prata), límpida e sem envelhecimento, e amarela, envelhecida em madeira para um perfil mais arredondado e rico.

Famosa sobretudo pela Caipirinha — cachaça, açúcar e lima —, a bebida destila o clima das festas, do Carnaval e do samba. Com nuances frutadas e picantes, a cachaça é tanto um hábito de casa quanto um cartão de visita no exterior.

França — vinho

O vinho é indissociável da cultura e da cozinha francesas. O país está entre os grandes produtores e exportadores do mundo, com regiões como Bordeaux, Borgonha, Champagne e Provença definidas por estilos próprios. Os vinhos se classificam por região, uva e método de produção, abrindo um vasto leque de aromas e sabores.

Do tinto e branco ao rosé e ao espumante — com Champagne como ponto de orgulho —, cada garrafa reflete seu terroir: clima, solo e relevo. A tradição pesa, e técnicas consagradas convivem com métodos modernos.

O vinho acompanha tanto as refeições do cotidiano quanto os marcos da vida. Ele condensa elegância, delicadeza e um certo apetite por viver — não surpreende que seja visto como um símbolo cultural por lá.

Rússia — vodca, kvass

A vodca é o destilado nacional russo e um pilar de seu patrimônio cultural. Produzida pela destilação de álcool etílico — geralmente de grãos ou batata — com água, tem sabor e aroma neutros, o que a deixa à vontade tanto pura quanto em coquetéis.

Com história longa, aparece em cerimônias e celebrações — de almoços de família a casamentos —, como sinal de hospitalidade e união. Apesar dos ingredientes simples, a qualidade depende de purificação e filtragem cuidadosas. Tradicionalmente servida gelada e acompanhada de petiscos substanciosos, a vodca virou atalho para falar de convivialidade e memória compartilhada.

O kvass é um clássico de longa data, com alcance amplo entre classes sociais. De baixo teor alcoólico, nasce da fermentação de pão de centeio ou farinha com malte, levedura e açúcar. Refrescante, levemente ácido e com até cerca de 1,2% de álcool, é apreciado há mais de um milênio, tanto no cotidiano quanto em mesas festivas.

Vinculado a ideias de tradição e simplicidade, feito por camponeses e nobres, o kvass é querido no verão pelo frescor. Entra até em pratos como a okroshka, a clássica sopa fria. Seu sabor único e benefícios modestos o mantêm no centro da cozinha russa há séculos.

China — baijiu

O baijiu é o destilado nacional chinês — potente e, via de regra, feito de grãos como o sorgo. Com teor alcoólico entre 35% e 60%, está entre os mais fortes do mundo. O nome significa “álcool branco” e suas raízes culturais são profundas, parte de rituais e feriados.

A produção usa um fermento especial que dá ao baijiu seu aroma típico. Os estilos variam bastante, de perfis mais doces a expressões intensas e picantes. É costume em casamentos e banquetes de negócios, servido em copinhos e tomado de um só gole como sinal de respeito — uma síntese da hospitalidade e do protocolo social chineses.

Coreia do Sul — soju, makgeolli

O soju é o destilado nacional sul-coreano, tradicionalmente feito de arroz, mas também de cevada, trigo ou até batata. Com 16%–25% de teor alcoólico, é mais gentil que muitos destilados, o que ajuda a explicar sua popularidade. De paladar macio e levemente adocicado, costuma ser tomado puro em copos pequenos.

O soju é peça-chave do protocolo à mesa, especialmente em encontros familiares e de trabalho. Há regras claras: os mais jovens servem os mais velhos e viram o rosto ao beber. Também entra em misturas — como a combinação de soju com cerveja — e acompanha bem petiscos. Na prática, facilita a conversa e o espírito de grupo.

O makgeolli é um vinho de arroz tradicional, leve, com cerca de 6%–8% de álcool. Feito ao fermentar arroz cozido, água e o fermento nuruk, é turvo, suavemente doce e agradavelmente ácido. Por muito tempo ligado à vida rural e ao descanso após o trabalho, voltou a ganhar espaço entre os mais jovens e visitantes graças ao perfil macio e ao visual marcante.

Servido em tigelas metálicas e muitas vezes ao lado de pratos como pajeon (panquecas salgadas), o makgeolli fala de hospitalidade e identidade coreanas.

Escócia — Scotch (uísque escocês)

O Scotch — o uísque nacional da Escócia — vem da destilação de cevada maltada, envelhecida por pelo menos três anos em barris de carvalho para ganhar profundidade e aroma. Engarrafado em cerca de 40%, baseia-se em três ingredientes: água, malte e levedura.

Há estilos como single malt, blended e grain, cada qual moldado pela região de origem. Mais que bebida, o Scotch é parte da identidade e das histórias do país, erguido em celebrações como o Hogmanay e apontado como símbolo de ofício e orgulho.

Turquia — rakı

O rakı, o tradicional destilado turco com sabor de anis, fica esbranquiçado quando misturado com água — daí o apelido “leite de leão”. Com 40%–50% de álcool, é produzido ao destilar álcool de uva com sementes de anis.

O rakı pede seu próprio ritual. Ele acompanha as longas mesas de meze — queijos, azeitonas, peixes, vegetais —, onde a conversa é a protagonista. Puro ou diluído para suavizar a força e abrir as notas de anis, associa-se a encontros calorosos e ao ideal de hospitalidade do país.

Finlândia — Koskenkorva

O Koskenkorva é o destilado nacional da Finlândia, uma vodca feita de cevada finlandesa de alta qualidade e água de nascente. Com cerca de 40% de álcool, é firme e notavelmente limpa graças à destilação meticulosa. Batizado com o nome da vila onde é produzido, costuma ser agrupado com a vodca, mas se destaca pelo processo de purificação e pelo caráter local. Além da versão clássica, há variações saborizadas — de frutas vermelhas a outros frutos.

É servido puro ou em coquetéis, e costuma marcar presença em feriados e mesas tradicionais — um aceno discreto à natureza e a uma hospitalidade direta.

Índia — lassi (bebida de iogurte), arrack

O lassi é uma bebida clássica à base de iogurte, valorizada por refrescar e nutrir. Há dois estilos principais: doce (com açúcar ou frutas, como manga) e salgado (com sal e especiarias como cominho e hortelã). Sempre parte de iogurte e água, mais temperos ou adoçantes, é cremoso e gentil.

Ele mata a sede no calor e amansa pratos picantes — o iogurte ajuda a suavizar a ardência. Em algumas regiões, água de rosas ou açafrão trazem um toque perfumado. É onipresente no norte do país, do cotidiano às celebrações, um gesto simples de acolhimento e bem-estar.

O arrack é um destilado tradicional presente na Índia e no Sul e Sudeste Asiático. No país, pode ser feito de caldo de cana fermentado, seiva de coco ou arroz, conforme a região. Seu teor alcoólico costuma variar de cerca de 30% a 50%. De perfil robusto, levemente adstringente e ligado a comunidades rurais, aparece em rituais e festas. Bebe-se puro ou misturado com água ou sucos.

Tchéquia — cerveja Pilsen

A Pilsen — a lager dourada nascida em Plzeň, em 1842 — virou cartão de visita do país. Límpida, brilhante e levemente amarga, com aroma do lúpulo Saaz, definiu o padrão de um estilo amado mundo afora. Feita com cevada de qualidade, água macia e lúpulos aromáticos, mostra precisão e sobriedade.

A cerveja é central na cultura tcheca e no cotidiano, e a Pilsen ocupa lugar especial pela qualidade e pelo valor histórico. Servida fria, em copos altos, e melhor apreciada em pubs com amigos, resume a tradição cervejeira e um espírito generoso e sociável.

Cuba — rum

O rum é a bebida-símbolo de Cuba e atravessa sua história. Feito de subprodutos da cana, como melaço e caldo, é fermentado e destilado, depois envelhecido em carvalho para desenvolver desde notas leves e macias até camadas mais profundas e escuras — o tempo é o fator decisivo.

Rótulos como Havana Club e Santiago de Cuba são conhecidos muito além da ilha, e o rum cubano sustenta clássicos como Mojito, Daiquiri e Cuba Libre — drinques que evocam sol, dança e o compasso descontraído da ilha. O rum é símbolo cultural e lembrança do passado colonial e da economia açucareira, além de fonte de orgulho e procura mundo afora.

Argentina — mate

O mate, querido na Argentina e em boa parte da América do Sul, é preparado com folhas secas e moídas de erva-mate e água quente (não fervente). Bebe-se por uma bombilla (canudo metálico) a partir de um recipiente próprio.

Com amargor agradável e nutrientes como vitaminas e antioxidantes, o mate dá um estímulo natural graças à mateína, semelhante à cafeína. Mas o que sobressai é a prática: a cuia que passa de mão em mão, gesto silencioso de camaradagem e conversa. Adoçantes como açúcar ou mel — e ervas — são opcionais; o senso de comunidade, esse não se negocia.

Marrocos — chá de menta

O chá de menta é a bebida nacional do Marrocos e sinônimo de boas-vindas. Prepara-se com chá verde Gunpowder, folhas frescas de menta e bastante açúcar. O preparo é um pequeno ritual: verte-se o chá da chaleira para o copo e de volta, para aprofundar o sabor e formar uma leve espuma.

Servido de mesas familiares a encontros oficiais, refresca no calor com sua doçura fria. Em copos pequenos e degustado sem pressa, vai além do cotidiano — é um marcador de identidade que aproxima pessoas e estende calor aos visitantes.

Espanha — sangria, horchata (orxata)

A sangria mistura vinho com frutas frescas, suco e, às vezes, um toque de destilado como conhaque. O nome vem de sangre — “sangue” —, referência ao vermelho profundo das versões com vinho tinto. Brilha no verão, servida bem gelada.

As receitas variam — cítricos, maçãs, pêssegos e frutas vermelhas entram na dança, e também vinho branco ou espumante para uma sangria blanca. Em jarras generosas, feita para compartilhar, ela capta um jeito espanhol de viver: alegria, abertura e companhia.

A horchata (orxata), especialmente querida em Valência, é uma bebida vegetal feita de chufa (tubérculo), água e açúcar. Branca e cremosa, é tradicionalmente servida fria para refrescar no calor.

Frequentemente acompanha os alongados fartons, ideais para mergulhar. Além de saborosa, é tida como nutritiva — a chufa é rica em vitaminas e antioxidantes. Um hábito local e um orgulho do cotidiano gastronômico valenciano.

Suécia — glögg (vinho quente)

O glögg é o aquecedor do inverno sueco, sobretudo no Natal. Este vinho quente parte de vinho tinto ou de uma base mais forte como vodca ou aquavit e é aquecido com especiarias — canela, cravo, cardamomo, gengibre —, além de açúcar, raspas de laranja e, muitas vezes, amêndoas e passas.

Servido quente com guloseimas sazonais, como biscoitos de gengibre ou pãezinhos de açafrão, o glögg é quase um convite a ficar mais um pouco quando as noites se alongam.

Alemanha — cerveja

A cerveja é a bebida nacional da Alemanha e uma tradição viva. O país é célebre pela diversidade — lagers, Pilsners, Weissbier (trigo), Bock e muito mais. A Reinheitsgebot, a lei de pureza de 1516, limitou os ingredientes a água, cevada e lúpulo, um lembrete de sobriedade e qualidade.

A cerveja está entranhada no cotidiano e nas festas. A Oktoberfest, em Munique, atrai entusiastas do mundo inteiro, onde se servem festbiers próprias da ocasião. Em bierhalls e biergartens, canecas tilintam com pretzels, salsichas e chucrute. A cerveja alemã representa ofício, continuidade e um vínculo cultural compartilhado.